Histórias reais de audiências por Dr. José Mello de Freitas, parte 19.

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  • O Júri de última hora – e o processo.

    Na época em que ocorreram estes fatos, o escritório funcionava na Bento Gonçalves, Edifício Adriana. Éramos eu e o João, meu saudoso irmão, e um secretário. O ano era 1983 e eu, que já fumara três maços de cigarros por dia, estava vivendo um período em que procurava não fumar o primeiro cigarro do dia, para não fumar naquele dia e começar de novo a luta comigo no outro. Afinal, depois da recomendação feita por um Juiz, estava tentando “ficar sóbrio do cigarro” no melhor estilo AA.  Tratava então de compensar a ansiedade do dia comendo alguma coisa. Em frente ao escritório havia uma “lancheria” (espécie de bar onde se vendiam bebidas e alimentos). Hoje quase não existem mais. Lá eu ia duas a três vezes por dia comer alguma coisa, para compensar a ausência do cigarro. Numa das manhãs em que fui lá, encontrei um colega, brilhante orador e que fazia muitos Júris, mas tinha problemas com a bebida. Quando me viu entrar disse: “Já sei, você vai fazer um Júri pra mim hoje. Porque eu, hoje, não tenho condições”. Ele estava em uma recaída e, infelizmente, não estava bem mesmo. Eu, na época, era vice-presidente da OAB, me preocupei com a questão e disse: “Vou pedir para o Juiz adiar o Júri”, mas ele disse que não era para fazer isso, que era para eu fazer o Júri, que era barbada, mas ele não estava bem e queria que eu fizesse. Já era quase onze e meia, corri ao Forum e falei com o Juiz que me disse que não adiaria. Que se se tratava de um Júri fácil, de prova apenas policial e onde o réu confessara na polícia e negara em Juízo. Assim, fui. O colega foi junto, não estava bem mas procurava disfarçar. Tomou um monte de café e, quando chegou na nossa vez, o Juiz me chamou e perguntou: “E daí?”. Eu disse que deixaria para ele, que achava que dava para fazer o trabalho. Nessas alturas eu já tinha olhado o processo e, com a palavra do promotor, completei um conjunto de argumentos para uma negativa de autoria, já que o réu, em plenário, também negara que tivesse praticado o fato. O colega foi à Tribuna, pensei que ele ia fazer o trabalho, mas vi que ainda não estava bem inteiro. Pois ele, na Tribuna disse “hoje quem vai trabalhar é meu colega Dr. Freitas” e retirou-se, me deixando com a incumbência de fazer a sustentação da defesa. Fiz meu trabalho, ele interferiu algumas vezes,  muito bem, por sinal e, por fim, concluído o trabalho e sobrevindo a decisão do Júri, ocorreu a absolvição. Foi um dos momentos importantes de minha vida profissional, onde procurei apenas ajudar o colega, embora, na época, tenha sido criticado por isso. Não me arrependo, penso que ele, se a situação fosse inversa, faria a mesma coisa. Algum tempo depois ele saiu de Passo Fundo. Nos encontramos em outra cidade e relembramos esse acontecimento tomando um cafezinho.

    Escrito por Dr. José Mello de Freitas.

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